• Dr. Douglas Kind Eleutério

Hipogonadismo no paciente idoso - A famosa "andropausa"

Atualizado: 24 de ago. de 2021


Muito se fala em "andropausa", um termo que no universo masculino seria o equivalente à menopausa feminina. A palavra andropausa é associada aos sintomas associados à testosterona baixa que são comuns em homens de meia-idade e idosos. Muitos buscam consultórios médicos desejando a reposição de testosterona para recuperar a "jovialidade perdida".


Mas o que diz a ciência sobre isso? A andropausa realmente existe? Homens mais velhos devem receber reposição de testosterona?


Entendendo a "andropausa"


Conforme os homens envelhecem, suas concentrações séricas de testosterona diminuem e isto é algo normal.


Devemos diferenciar os sintomas da testosterona baixa dos sintomas normais do envelhecimento, o que nem sempre é fácil.


Estudos recentes mostram que aumentar os níveis de testosterona de homens mais velhos com baixos níveis de traz alguns benefícios, mas nenhum estudo tratou e observou por tempo suficiente para determinar os riscos desse tratamento.


Quais são as alterações hormonais esperadas com o envelhecimento do homem?

  • Testosterona total:

  1. Estudos mostram um declínio da testosterona total com o aumento da idade. Parece haver uma queda na concentração sérica de testosterona total de 0.4% ao ano, que se inicia após os 35 anos e se intensifica após os 80 anos.

  2. Outra característica da testosterona com o aumento da idade é a perda da ritmicidade circadiana. Enquanto os homens jovens exibem um aumento proeminente pela manhã, com pico por volta das 8h, os homens mais velhos mostram um aumento muito moderado neste mesmo período do dia.

  • Globulina ligadora de hormônio sexual sérico (SHBG): os níveis aumentam gradualmente com a idade. Como a SHBG se liga à testosterona com alta afinidade, há menos testosterona total é livre (isto é, biologicamente ativa) com o passar dos anos.

  • Testosterona livre: diminui com o aumento da idade em um grau maior do que a testosterona total.

  • Gonadotrofinas: O FSH e o LH, produzidos na hipófise e responsáveis pela produção de espermatozoides e testosterona são mais altos nos idosos, mas eles não sobem como o esperado, sugerindo que nos idosos exista alteração testicular e hipofisária levando ao hipogonadismo.

  • Obs.:

  1. Obesidade: além da idade, a obesidade também pode interferir. Obesos podem desenvolver hipogonadismo hipogonadotrófico, com testosterona total, testosterona livre e SHBG mais baixos e LH normal ou baixo.

  2. Outras doenças: além da idade, a presença de uma ou mais morbidades pode gerar hipogonadismo hipogonadotrófico, com testosterona total e livre mais baixos e LH normal ou baixo.

Quais as consequências da queda da testosterona associada ao envelhecimento?


Nenhuma consequência clínica do declínio da testosterona sérica com a idade é conhecida com certeza, mas várias associações entre os efeitos do envelhecimento e os do hipogonadismo devido à doença hipofisária ou testicular sugerem que o declínio da testosterona sérica pode ser a causa de vários efeitos do envelhecimento.


Tais associações incluem um declínio na libido e na atividade sexual, diminuição da massa e força muscular, humor deprimido, diminuição da densidade mineral óssea (DMO) e anemia. Hipogonadismo grave também foi associado à resistência à insulina e à síndrome metabólica.


Como avaliar se um homem apresenta hipogonadismo?

  • Quem deve ser testado? Homens mais velhos que apresentam sintomas (por exemplo, diminuição da libido, humor depressivo), achados físicos (por exemplo, diminuição dos pelos do corpo) ou achados laboratoriais (por exemplo, anemia, baixa densidade mineral óssea [DMO]) de baixa testosterona devem ser avaliados da mesma forma que os homens sintomáticos mais jovens.

  • Como realizar os testes? O teste inicial deve ser uma dosagem de testosterona sérica no início da manhã (por volta de 8h), em jejum. Se o resultado for baixo, o teste deve ser repetido pelo menos uma vez, de preferência duas. É importante também dosar LH e FSH para ajudar a determinar a causa. Alguns casos necessitam de avaliação testicular e da hipófise.

Quem deve receber reposição de testosterona?


Qualquer homem, independente da idade, deve receber reposição de testosterona se ela estiver baixa devido a doença hipofisária ou testicular conhecida, a não ser que existam contraindicações.


O tratamento de homens mais velhos com testosterona baixa sem nenhuma razão discernível além da idade é controverso.


Para se ter uma ideia da controvérsia, Em 2015, a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA instruiu os fabricantes de produtos de testosterona a declarar em seus rótulos que esses produtos são aprovados apenas para homens com baixa testosterona devido a causas conhecidas.


No entanto, outros grupos de especialistas argumentam que pode haver um papel para a terapia com testosterona em pacientes selecionados, após descartados riscos e contraindicações.


Alguns autores sugerem reposição para homens mais velhos que têm sintomas e condições sugestivas de deficiência de testosterona e que têm níveis séricos de testosterona consistentemente e inequivocamente baixos após discussão explícita dos riscos e benefícios potenciais.


Quais são os possíveis benefícios da reposição de testosterona?


Em estudos recentes, foram observados:

  • Função sexual: parece haver uma melhora moderada na função sexual, incluindo atividade sexual, desejo sexual e, em menor grau, função erétil.

  • Função física: estudos mostram resultados conflitantes.

  • Vitalidade: homens que receberam testosterona relataram melhor humor e menor gravidade dos sintomas depressivos quando comparados ao placebo.

  • Função cognitiva: estudos mostram resultados conflitantes.

  • Anemia: parece haver melhora nos níveis de hemoglobina em homens anêmicos por causa desconhecia ou conhecida.

  • Densidade óssea: parece haver melhora significativa nos resultados de densitometria e de resistência óssea nos homens tratados com testosterona.

E quais são os possíveis efeitos colaterais ou malefícios da reposição de testosterona?

  • Doença nas coronárias: pode haver um aumento no tamanho das placas coronarianas naqueles que recebem reposição de testosterona, o que levanta sérias preocupações na reposição em homens mais velhos. Entretanto, os estudos são conflitantes quando se avalia os eventos cardiovasculares isquêmicos (alguns mostram aumento do risco, outros não).

  • Eritrocitose: pode haver elevação da hemoglobina acima dos níveis normais em homens que recebem reposição de testosterona, o que aumenta a preocupação em relação ao aumento do risco de tromboembolismo venoso.

  • Câncer de próstata: pode haver aumento dos níveis de PSA após a reposição de testosterona, mas os estudos não mostram aumento do número de câncer de próstata. Mais estudos são necessários.

  • Hiperplasia da próstata: parece não haver piora dos sintomas associados à hiperplasia da próstata.

  • Apneia do sono: estudos divergem, alguns mostram piora da apneia, outros não.


Quem não pode receber reposição de testosterona?

  • Pacinete tem nódulo prostático não avaliado.

  • Paciente com PSA > 4ng/mL ou > 3ng/mL em homens com risco aumentado de câncer de próstata (por exemplo, homens afro-americanos ou aqueles que têm um parente de primeiro grau com câncer de próstata diagnosticado).

  • Paciente com hematócrito > 48%.

Como avaliar se o tratamento de reposição de testosterona está adequado?

  • Nível de testosterona: busca-se manter a testosterona na faixa normal-baixa para homens jovens.

  • Nível de PSA: repetido 3 a 6 meses após início do tratamento. Não deve haver aumento acima de 1.4ng/mL sobre o valor de base ou elevação para níveis acima de 4ng/mL.

  • Hematócrito: repetido 3 a 6 meses após início do tratamento, depois anualmente.

Em resumo


Estudos demonstram que o tratamento com testosterona de homens mais velhos sintomáticos com níveis inequivocamente baixos de testosterona é eficaz na melhoria da função sexual, caminhada, humor, sintomas depressivos, anemia e densidade óssea, todos em graus modestos.


O tratamento com testosterona, no entanto, não melhorou a vitalidade ou a função cognitiva e foi associado a um aumento de níveis não calcificados do volume das placas coronarianas. Embora o tratamento com testosterona não tenha sido associado a riscos aumentados de eventos cardíacos clínicos ou câncer de próstata, um ensaio muito maior e mais longo seria necessário para avaliar esses riscos com maior certeza.


Fonte: UpToDate


Este Blog é de caráter informativo. Nenhuma informação dos textos deve ser considerada indicação médica. Dados científicos podem variar conforme a fonte ou o momento de sua publicação. Para sanar suas dúvidas ou buscar tratamento, procure um médico.



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