• Dr. Douglas Kind Eleutério

"Fadiga adrenal" existe?


Cada vez mais chegam ao consultório pacientes querendo "dosar o cortisol". Quando pergunto a razão (afinal de contas cortisol não se dosa sem motivo), a maioria relata queixas inespecíficas como cansaço excessivo, indisposição e desânimo.


O fato é que surgiu nos últimos anos a crença de que a deficiência de cortisol pode estar por trás destes sintomas e isto se deve à mídia e até mesmo a profissionais de saúde, que veiculam e propagam a ideia de que podemos ser vítimas do que eles chamam de "fadiga adrenal".


Vamos falar sobre isso?


O que são as glândulas adrenais?


As suprarrenais ou adrenais são duas glândulas localizadas acima dos rins e sintetizam vários hormônios com funções muito importantes. Durante um estresse metabólico, elas reagem produzindo corticosteroides (como o cortisol) e catecolaminas. Além destes, elas produzem aldosterona (hormônio que auxilia no controle da pressão arterial) e parte dos hormônios sexuais em homens e mulheres.


As adrenais podem funcionar mal ou parar de funcionar?


Sim, mas são síndromes ou situações raras, causadas por doenças autoimunes, infecciosas, entre outras.


Nesta situação, que nós chamamos de insuficiência adrenal e pode ser aguda ou crônica, os sintomas também são em sua maioria inespecíficos, como pressão arterial baixa que piora ao se levantar (hipotensão postural), cansaço crônico, fraqueza, dores, tonturas, dor de cabeça, náuseas, vômitos, diarreia, perda de apetite, perda de peso, escurecimento da pele e lábios (em alguns casos).


E o que é a fadiga adrenal? Ela existe?


“Fadiga adrenal” é um termo utilizado para descrever uma condição em que o organismo reagiria ao estresse continuamente. Devido a isto, fala-se que as adrenais "se cansam" de trabalhar e reduzem ou interrompem a produção de cortisol. Os sintomas associados seriam aqueles que falei acima, como o cansaço excessivo, a indisposição e o desânimo.


A ideia de que ocorre a fadiga adrenal vem do fato do cortisol ser conhecido como o "hormônio do estresse". Mas não é bem este tipo de estresse do dia-a-dia a que todos estamos expostos e sim o estresse metabólico que ocorre em condições agudas e potencialmente graves, como doenças, traumatismos e queimaduras. Nestes cenários, o cortisol tem importantes funções como equilíbrio eletrolítico, controle vasomotor, imunológico, entre outros. Ele atua para nos manter vivos e a sua falta nestes casos pode nos levar à morte.


O estresse normal a que somos submetidos diariamente NÃO é capaz de "cansar" nossas adrenais e os sintomas de cansaço e indisposição erroneamente associados a um cortisol baixo podem ocorrer devido a outras doenças e ao estilo de vida inadequado.


A maioria dos pacientes com estas queixas não têm doenças. Eles basicamente apresentam características como comer mal, dormir mal, não se exercitar, não ter momentos de lazer, trabalhar muito, ter ansiedade, questões familiares não resolvidas e mais um punhado de problemas.


E a maioria só é capaz de enxergar isto após ser confrontada, pois o que todos desejam é o caminho mais fácil, um atalho, que se traduz na esperança de uma medicação que as deixe continuar com um estilo de vida ruim, mas bem dispostas. Mudanças de estilo de vida são difíceis, levam tempo e nem todos têm disposição ou condições de fazer isso, pois é necessário abrir mão de muitas coisas, algumas delas prazerosas.


E o pior é que encontram apoio em profissionais mal preparados ou mal intencionados, na ânsia de gerar um diagnóstico para o paciente e assim indicar um tratamento que vai resolver seus problemas.


Quais os riscos de receber um diagnóstico de "fadiga adrenal"?


O maior problema neste caso é que baseado em sintomas inespecíficos muitos profissionais prescrevem corticoides para repor algo que não está em falta.


Na prática, o médico inventou uma doença para você e indicou um tratamento desnecessário com potencial de gerar situações perigosas. O uso desnecessário de corticoides pode gerar dois principais problemas:

  • Síndrome de Cushing exógena: aumento da pressão arterial sistêmica, ganho de peso, aumento da glicose no sangue, alterações no humor (como depressão e/ou ansiedade), redução na massa óssea (osteoporose), entre outros.

  • Supressão do seu eixo corticotrófico: significa que ao usar corticoide em excesso, a sua própria produção é interrompida e caso você precise aumentar os níveis de cortisol devido a um estresse metabólico grave (como nas situações que eu citei acima) pode não conseguir, com resultado potencialmente grave, incluindo a morte.


O meu médico dosou meu cortisol e disse que ele está baixo. O que fazer?


O primeiro passo é sair desta consulta e procurar um Endocrinologista capacitado. A dosagem do cortisol basal baixo por si só não é diagnóstico de insuficiência adrenal. Serve apenas como um screening e seus valores podem variar muito de uma dosagem para a outra. Para a confirmação de um cortisol baixo, deve ser realizado um teste de estímulo, que é feito em condições especiais.


Então, caso você receba um diagnóstico de "fadiga adrenal" após a simples dosagem de um cortisol, desconfie da formação do seu médico, pesquise se ele é um Endocrinologista, pois é um conceito errado, de algo que não existe.


A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) já se manifestou sobre isso. Confira:


https://www.endocrino.org.br/nota-de-esclarecimento-sobre-fadiga-adrenal


Este Blog é de caráter informativo. Nenhuma informação dos textos deve ser considerada indicação médica. Dados científicos podem variar conforme a fonte ou o momento de sua publicação. Para esclarecer suas dúvidas ou buscar tratamento, procure um médico.

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